Marcos Pereira on-line

20 fevereiro 2005

Beatle Day – Homenagem Póstuma ao Diosni

Diosni. O nome dele era incomum, ele era incomum, éramos incomuns. Ele, meio descoordenado; eu, muito franzino. Nas aulas de educação física, na hora da formação dos times, éramos os últimos a serem escolhidos. Losers? Não! Apenas um pouco desajustados ao meio. Éramos pop precoces numa época em que os adolescentes normalmente jogavam bola, sabiam tudo de carros e motos e competiam no banheiro da escola para ver quem se masturbava mais. Em meio a tudo isto, ficávamos um pouco à margem, pois música era o nosso assunto favorito.

Conheci a discografia dos Beatles através do Diosni. Numa das contracapas dos LPs dos Beatles - se eu não me engano “Os Reis do Iê Iê Iê”, como foi batizado o “Please Please Me” aqui no Brasil - estavam ilustradas as capas de toda a discografia oficial dos Beatles. Aquele era o mapa da “Magical Mistery Tour” pelo fantástico mundo dos primórdios da música pop. De posse do mapa, todo mês ele ia lá na loja “A Musical” da praça Mauá, centro de Santos, comprar uma fita cassete da discografia. Depois de ouvir, ele me emprestava e trocávamos figurinhas a respeito.

Cursávamos, então, a 7ª série da escola Brás Cubas. A professora de inglês encomendou à classe um trabalho de tradução e interpretação de música. O destaque foi a apresentação do grupo do Roni . O afro-black-power-adolescente arranhava um violão e o grupo dele apresentou “Ebony and Ivory”, mega-sucesso da dupla Paul McCartney e Stevie Wonder. Qual música escolhemos? Ora bolas, não poderia ser outra senão uma dos “Fab Four”. O meu grupo éramos o Diosni, Mauro, Zé Roberto e eu. O Diosni e o Zé não se bicavam e viviam se agredindo. Pela facilidade da letra, escolhemos a música “All My Loving”. Esta o Diosni ainda não tinha adquirido. Então, alguém conseguiu o LP que continha a dita cuja e fomos lá pra casa do Zé Roberto, na rua Visconde de Farias (bairro Campo Grande, província de Santos). O Zé era de uma família burguesa e o irmão dele tinha uma puta aparelhagem de som Gradiente e Polivox. Gravamos a música numa fitinha BASF 60.

13 de setembro de 1981. É chegado o dia da apresentação do trabalho. Óbvio que a apresentação acústica e ao vivo de “Ebony And Ivory” ganhou a professora. Todos os grupos que viriam depois teriam a árdua tarefa de cumprir tabela. Não fugimos à regra. Como aspirantes a beatlemaníacos, pelo menos naquele momento o Diosni e eu carregamos o time, ou melhor, o grupo nas costas. Principalmente porque a gravação de “All My Loving” é naquela linha de estéreo bem primário, em que num canal ficam os vocais e, no outro, os instrumentos. Quando tocado num aparelho mono, como aconteceu na sala de aula, a sobreposição dos canais direito e esquerdo produzem um efeito que lembra arranjo de karaokê, ou seja, os instrumentos “vêm” pra frente e os vocais ficam lá no fundo. Resultado: tosqueira total. As nossas vozes desafinadas e erros de pronúncia foram flagrantes. No final da apresentação, a sensação foi um misto de alívio com dever cumprido.

Começa 1982 e caímos na mesma classe, a 8ª A. De colega de escola, o Diosni se tornou meu amigo e até se aproximou da minha família. Antes da aula, ele passava lá em casa e fazia um social com os meus pais e minha irmã. Tudo caminhava bem até que, no início do 2º semestre, ele faltou vários dias seguidos na escola. Preocupado, fui atrás de notícias e fico sabendo da sua internação. Diagnóstico: disfunção renal. Como amigo mais próximo, naturalmente acabei me tornando o porta-voz, para a classe, da evolução do quadro clínico. A 8ª série encerrou um ciclo de forma tristonha. Comecei o colegial um tanto solitário: escola nova, gente nova, mundo novo e o melhor amigo em estado terminal.

Do hospital, a pedido dos seus pais, o Diosni foi levado pra casa. Passei alguns dias paralisado, sem coragem de visitá-lo. Quando decidi ir, era tarde demais. Como costumam dizer para as crianças, quando alguém morre, ele havia viajado no dia anterior. O Diosni veio a falecer no dia 20 de fevereiro de 1983 de insuficiência renal. Instituí no meu calendário esta data como o “Beatle Day”. Meses depois o meu pai viria a falecer. Tudo isto acontecendo e eu só tinha 15 aninhos. Pobre Marcão! ‘Help, I need somebody!’ Ops, texto póstumo não necessariamente precisa ser triste. Vâmo dá uma chacoalhada, isso aqui tá muito mexicano, só faltava o cão de estimação da família morrer. E o Lobo morreu mesmo. Bom, estes e outros episódios serão publicados em detalhes (tão pequenos de nós dois) na minha biografia não-autorizada. Ou não! Ou sim, haja vista que a negação da negação é a afirmação inicial. E menos com menos dá mais. E um mais um é zero e vai um, na álgebra booleana.

Afinal, o que acontece no ‘Beatle Day’? Simples, os meus players tocam Beatles à exaustão. Esta é a forma que encontrei para homenagear, é a minha prece silenciosa para o Diosni. Em algum canto do Universo ele deve estar pedindo autógrafo ao John Lennon e ao George Harrison. Diosni, obrigado pela sua efêmera, mas importantíssima passagem por este planetinha e pela minha vida.

Feliz 'Beatle Day'!

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P.S.
Este texto-diário lavou a minha alma e o teclado do micro.
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P.S.II
Em 1988, depois de passar um ano em São Paulo, voltei para Santos. Nos fins de semana havia um espaço na cidade para novas bandas se apresentarem (Concha Acústica, canal 3). Predominavam as bandas de rock. Eu batia o ponto lá todos os domingos. Certo dia, no meio da galera, encontrei o Zé Roberto trajando jaqueta de couro com visual motorcycle. Não via o cara desde o ginásio. Ele tinha virado roqueiro e fã incondicional do AC/DC e, para minha surpresa, lembrou do Diosni com uma reverência toda especial, como quem se lastimasse por deixar passar em branco a oportunidade de compartilhar mais de perto da companhia de um cara muito legal.
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P.S III
Dos 4 beatles, o menos brilhante e o mais bacana, para mim, é o Ringo Starr. Ele entrou para os Beatles aos 45 do segundo tempo da prorrogação para substituir o Pete Best, por determinação do manager George Martin. Sorte nossa! O Ringo é daqueles coadjuvantes que só dignifica os protagonistas, sem ciumeiras de qualquer ordem. O cara é muito bem humorado e boa praça, até fez uma ponta num episódio dos Simpsons. A voz anasalada do Ringo caía muito bem em músicas divertidas, tais como “Octopus´s Garden” e “Yellow Submarine”. Sem esquecer da primorosa interpretação de ‘With a Little Help From My Friends’, em que o Ringo encarna Billy Shears, nome criado para rimar com ‘years’.
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P.S. IV
No bojo do flashback sentimental, lembrei de uma música de 1981 da Jane Duboc, hoje talvez mais conhecida como a mãe do esquisito Jay Vacquer. A música tem um verso que diz assim:
"É preciso que um dia se vá pra que outro dia amanheça".
Complemento com estes:
“The life goes on.
The show must go on.”

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