Lembro claramente daquele longínquo 2004. O mundo era complemente outro. Ainda não havia
smartphones. Os celulares do modelo "startup" eram a coqueluche daquele momento.
Era o aparelho desejado pelos descolados de plantão. Os iPods também faziam sucesso (eu
ainda não havia descoberto; somente em 2006, depois de muita resistência, me entreguei aos encantos do mundo
de Steve Jobs; virei fã! E o programa de transferência e gerenciamento de
músicas, o iTunes? Totalmente lúdico; praticamente tudo que eu intuitivamente
queria, ele realizava).
No trabalho, tudo muito confuso; rolava mudança de
ambiente. Nos poucos computadores do escritório com acesso comunitário à internet, os
colegas de trabalho se convidavam para entrar numa coisa nova, um tal de "Orkut". O Orkut
despontava como a primeira grande rede social, ao menos no Brasil. Só podia
entrar quem era convidado por outro usuário que já estava lá. O MySpace era
outra rede, só que especializada em música, onde os artistas criavam seu perfil
e recheavam a plataforma com postagens, divulgação de shows e músicas exclusivas
para baixar. (Por quê desapereceu?)
No geral, a vida estava meio embotada. Nas oscilações de humor,
eu estava numa fase deprê brava. Fazia terapia e entrei para o curso de teatro para tentar dar uma
chacoalhada no humor. Pensei em criar um podcast de música, coisa incipiente na época.
A ideia flopou. O podcast era outra novidade, que integrava o que se convencionou chamar de web 2.0,
na qual o internauta (aliás, esta palavra me lembra o quadro "Participação do Internauta", dentro
do saudoso programa "Irritando Fernanda Young") deixava de ser mero espectador e passava a gerador
de conteúdo, também.
Neste contexto, surgiram os blogs. Originalmente, o blog nada mais é do que um
registro pessoal, ou seja, o antigo caderninho "meu querido diário", onde as
pessoas derramavam seus prazeres, amores, suas dores, dissabores, enfim, falavam
de si próprias. Na web 2.0 foi além e ganhou outros contornos. Virou uma espécie
de praça pública, na nuvem, para discutir temas específicos. Ou seja, havia
blogs especializados em cultura, culinária, moda, games, esportes, etc. Mais adiante, os
articulistas de jornais adotaram o blog como extensão do espaço
limitado que detinham nos periódicos.
Opa! Também quero brincar disso, pensei; quero fazer parte deste mundo, a blogosfera.
Já tinha tido experiência de escrever uma coluna para "O Mundo de Silverteen", um ego-site-pop-adolescente do
meu primo, um dos meus queridinhos da vida, o Filipe. Me dei conta, que escrever
surtia efeito terapêutico. Como não suportei a catarse de emoções que me
acometiam nas aulas de teatro, me entreguei à introspecção da escrita. Embora o
tema seja o meu mundo umbigo, de certa forma, este queridíssimo blog,
humildemente, não deixa de ser uma pequenina lente que captou o espírito do
tempo dos acontecimentos dos últimos 20 anos.
A vida real (pode) supera(r) em muito a ficção. Basta colocar o holofote nas pequenas coisas e
elas se tornam visíveis. Às vezes, se revelam belas. Noutras, nem tanto. Boa parte das vezes,
ordinárias (no sentido de comuns; não aquele sentido da música do "É o Tchan") e, de vez em
quando, extraordinárias. Como diz a tia Billiki, plagiando a música do Odair José,
"a felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes".
Nesta toada é que foi concebido este "meu querido diário". Com o propósito de tratar de questões do dia-a-dia com uma aura romantizada,
um tanto poética, às vezes. Assim, alguns momentos mundanos, poderiam se tornar épicos. Afinal,
pode existir beleza no dia-a-dia, sem precisar esperar desesperadamente pelos momentos extraordiários.
Para celebrar estas 2 décadas de existência, selecionei posts que têm valor especial.
Principalmente, aqueles nos quais consegui dar vazão e forma ao que sentia.
Então, vamos aos posts top 7, escolhidos pelo conselho editorial da "Mauro Jorge Press" em parceria
com a "Yah-Youls Entertainment" ...
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1, 2 e 3)
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Beatle Day - Homenagem Póstuma ao Diosni
http://mp-online.blogspot.com/2005/02/beatle-day-homenagem-pstuma-ao-diosni.html
Para (e sobre) o tio Mané ...
http://mp-online.blogspot.com/2016/12/para-e-sobre-o-tio-mane.html
Eu preciso dizer que te amo, Pietro. Feliz 4 anos !!!
http://mp-online.blogspot.com/2021/09/eu-preciso-dizer-que-te-amo-pietro.html
Comentário: empate técnico no pódio. Porque eu chorei e sorri muito ao escrever
estes textos. Parafraseando o rei, o importante é que emoções eu vivi.
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4) Despedidas e não-despedidas
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http://mp-online.blogspot.com/2004/10/despedidas-e-no-despedidas.html
Comentário: porque o texto-base estava muito sentimental. Tentei compensar
escrevendo PSs de perdas materiais atribiundo dramaticidade a cada uma delas.
Ser sério brincando e brincando sendo sério. Pólos alternados, instabilidade,
movimento. Gosto disto!
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5) Rocket Man - livre interpretação e análise
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http://mp-online.blogspot.com/2010/11/rocket-man-livre-interpretacao-e.html
Comentário: filosofia de boteko bem argumentada e pretensiosa.
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6) Top 40 dos meus 40
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http://mp-online.blogspot.com/2008/01/top-40-dos-meus-40.html
Comentário: misturar assuntos diferentes, aparentemente desconexos e traçar um
fio condutor entre eles, a partir de um eixo central, buscando referências que me
influenciaram. Descobri, por acaso, numa aula de Língua Portuguesa que isto tem nome:
"intercontextualidade". Pois é, meu blog é, timidamente, super-intercontextualizado.
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7) Crying - Pela volta das canções românticas no rádio
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http://mp-online.blogspot.com/2013/01/crying-pela-volta-das-cancoes.html
Comentário: texto exagerado, cheio de transições. E eu amo a dor contida nos versos
de "Crying", uma das músicas que eu, como cantor de interior, interior de
automóvel, mais gosto de cantar (e berrar), batucando no volante.
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E que venham os próximos 20 anos!
E que venham os próximos 30, 50, 90 anos!
E que venha a eternidade!
E viva Zapata!!!
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Pra não dizer que não falei (escrevi) de suicídio ...
P.S. confessional: sobre o (rimado) subtítulo "não me suicidei por um triz, Yah Youls não quis",
primeiramente, Yah Youls é um nome criado pelo Pipykho (Pietro, ele não gosta de ser chamado assim), no meio das
nossas brincadeiras, que inclui gobher-gobher, cai-junto/cai sozinho, bundha n´akara e desce-desce. Na falta de um deus
para acreditar, Yah Youls se tornou o que seria o mais próximo de uma divindade, pois foi criado num momento de diversão.
Nem sempre, mas quando lembro, faço consagração da massa de pizza reverenciando Yah Youls.
P.S. confessional II: no livro "As Valquírias", do Paulo Coelho, em dado capítulo, ele interrompe a narrativa
para contar uma passagem crucial na vida dele. Ele e o Raul Seixas "brincavam" de rituais de magia negra,
sem acreditar nas consequências. Até que ele é chamado a prestar contas. Bom, o resto da história tá lá no livro.
A ideia aqui é parecida no sentido de abrir um grande parênteses.
Ao longo da minha vida tive altos e baixos emocionais, como qualquer pessoa. A diferença é que os altos
e baixos são muito intensos. Em agosto e setembro de 2022, eu sucumbi. Completamente exaurido, emocionalmente,
vivendo um inverno frio e chuvoso, isolado dentro de um quarto, eu traçava planos para sair daquele estado, sem enxergar saída.
Sem forças, a depressão veio mais forte que das outras vezes. Como descrever depressão? Da minha experiência, é como
se o organismo estivesse em greve de si mesmo. O corpo e a mente se rebelam, entram em colapso e tudo parece sem sentido,
sem perspectiva. Trata-se de um vazio existencial que nada é capaz de preencher.
P.S. confessional III: na música "Creep", do Radiohead, o Thom Yorke canta "What the hell am I doing here?" (Que diabos estou fazendo aqui?) /
"I don’t belong here (Eu não pertenço a este lugar). A música é sobre amor platônico, mas estes versos reproduzem bem a sensação de
auto-flagelo e deslocamento no mundo pela qual eu passava. Num raro momento de lucidez, quando os pensamentos pesados deram uma
trégua, lembrei do ritual do Daime. Bom, perdido por perdido, fui ver no que dava.
Antes do início, a responsável pelo espaço e o pai dela reuniram quem estava lá pela primeira vez. Eles explicaram como funcionava
o ritual e perguntaram o motivo de estarmos lá. Fragilizado e indefeso, me senti seguro para expor meu sentimento abertamente
"eu não estou satisfeito com a pessoa que me tornei", respondi. Depois, abriram para perguntas. Quase no final, eu perguntei
"E se a gente não der conta (dos efeitos do chá)?". Ela garantiu que era seguro e que eles estariam lá para amparar, em caso de necessidade.
Lá fomos nós. Bebi vários copinhos e nenhuma viagem, nada de diferente. Até que os atabaques começaram o tocar alto, muito alto,
num ritmo acelerado. Ali se iniciou a minha bad trip. Precisei de ajuda.
P.S. confessional IV: Nos dias seguintes estava me sentindo muito bem. Me amancebei e voltei a ter planos.
Mas, aos poucos voltei a ficar mal. Até que, meses depois, decidi pelo fim, novamente. Mas, deste vez, fui às vias de fato.
O plano infalível do Cebolinha falhou e acabei aceitando a internação num hospital psiquiátrico (Caism), voluntariamente.
Foram 4 dias, embora eu quisesse ficar por mais tempo.
P.S. confessional V: e cá estou, alone again (, naturally). Tranquilizado pelo carbonato de lítio, tentando ser menos reativo, mais contemplativo e mais tolerante.